Escetamina: uma nova perspectiva para psiquiatria

Escetamina: uma nova perspectiva para psiquiatria

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O episódio depressivo é uma doença comum, com prevalência de 20% ao longo da vida, de acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), quase 300 milhões de pessoas sofrem de depressão no mundo. O Transtorno Depressivo Maior é diagnosticado pela presença de humor deprimido ou perda de interesse e prazer associado a mais de cinco dos seguintes sintomas: ganho ou perda ponderal (de peso) significativo (> 5%) ou diminuição ou aumento do apetite, insônia (muitas vezes insônia de manutenção do sono) ou excesso de sono, agitação ou atraso psicomotor observado por outros, fadiga ou perda de energia, sentimentos de inutilidade ou culpa excessiva ou inapropriada, capacidade diminuída de pensar, concentrar-se ou indecisão, pensamentos recorrentes de morte ou suicídio, tentativa de suicídio ou um plano específico para cometer suicídio por pelo menos duas semanas, na ausência de episódios maníacos ou hipomaníacos prévios (que fariam diagnóstico diferencial dom Transtorno Afetivo Bipolar).


O tratamento do episódio depressivo unipolar é realizado com o uso de antidepressivos e psicoterapia. Estima-se que um a cada três pacientes apresenta remissão (que significa resposta completa dos sintomas ao tratamento) do episódio com o tratamento e os demais seguem com resposta insatisfatória. Em tais paciente utiliza-se associação e medicações e, da mesma forma, uma porcentagem de pacientes segue com sintomas - o que chamamos de depressão refratária (quando não há resposta ao tratamento com dois ou mais antidepressivos distintos).


O tratamento deve ser precoce, assim, minimizando a chance de sintomas crônicos e residuais (dentre eles podemos citar queixas de memória e atenção, insônia). Evidências atuais enfatizam a necessidade de promover melhora do estilo de vida dos pacientes, já que boa parte deles tem estilo de vida menos ativo. Por isso, parte do tratamento também inclui a realização de exercícios físicos e melhora de hábitos alimentares.
Tendo em vista o grau de incapacidade e limitação tanto dos pacientes quanto das opções terapêuticas, a ANVISA liberou o uso do spray nasal de escetamina para o tratamento dos sintomas. Tal medicação já é utilizada nos Estados Unidos desde 2019 para tal intuito.


A escetamina é derivada da cetamina, um anestésico já utilizado há muitos anos para analgesias e sedações e, há algum tempo, vendo sendo estudada para controle da depressão refratária associada ao uso de antidepressivos. A principal hipótese para o seu funcionamento é a atuação em neurotransmissores glutamatérgicos e ativando algumas áreas do cérebro ligadas as emoções (córtex cingulado anterior).


As principais indicações da escetamina são: depressão refratária e episódio depressivo com comportamento ou ideação suicida aguda e sem sintomas psicóticos. Os estudos evidenciaram que o uso de escetamina associado ao uso de antidepressivo potencializou sintomas e qualidade de vida. O uso da medicação é realizado sob supervisão médica e em local adequado (hospital ou clínica especializada). Seu uso é contrainidicado em pacientes com aneurisma ou má formações arteriovenosas, história de hemorragia intracerebral ou hipersensibilidade a medicação.


A escetamina apresenta rápido efeito de ação e observa-se melhora de sintomas dentro das primeiras 48 horas de uso. A longo prazo, a melhora se mantém com o uso do antidepressivo e da escetamina associados.
Os principais efeitos colaterais associados ao uso da escetamina são: ansiedade, aumento de pressão arterial, sintomas dissociativos, vertigem, hipoestesias, náuseas, vômito, sedação e o uso a longo prazo também pode ser associado a tais efeitos.
Os estudos ainda seguem sendo realizados para observar-se a manutenção da melhora dos sintomas e acompanhamentos dos pacientes. Mas a escetamina trouxe uma nova opção terapêutica em pacientes que tem baixa resposta aos tratamentos convencionais e, aparentemente, apresenta uma opção promissora tendo em vista seus efeitos em paciente com ideação e comportamentos suicidas.


A depressão é uma doença muito comum e que diminui muito a qualidade de vida dos afetados. Se você conhece alguém conhece alguém que tenha sintomas depressivos ou que tenha tais sintomas, procure o mais breve possível um médico psiquiatra para iniciar um tratamento específico e individualizado.

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